QUEM FAZ VENTURE DEBT

Andre Wetter

Andre Wetter

Co-Founder da a55

 

Muitas pessoas associam o que a a55 faz como venture debt, há diversas formas de Venture Lending, modalidade de empréstimo para start-ups. Uma das quais é nossa linha de MRR que é feita para um financiamento para empresas com receita previsível, e também encaixa em tal conceito.

Nós contamos um pouco o que é e como funciona o venture debt neste artigo, mas achamos que faria muito mais sentido convidar alguém no mercado para dar uma visão externa, de uma gestora focada no assunto para falar no nosso Blog.
Abaixo você vai encontrar uma entrevista concedida pelo Victor Gomieri que é Partner da Riza Asset e que conta com um braço de atuação focado em venture debt.

  1. Qual melhor momento para captar um VD?

Sempre digo aos empreendedores que o Venture Debt (VD) deve estar presente durante todo o ciclo de captação da empresa e deve fazer parte da sua estratégia de crescimento.

Usando adequadamente, o VD entre rodadas de investimento, ou como co-investimento, ajuda os empreendedores a reduzir diluição, a ter disponibilidade de capital para realizar investimentos, consequentemente trazendo mais crescimento (orgânico e inorgânico) e ajuda a empresa ter capital disponível para suportar fluxo de caixa negativo, ou seja, estender seu runway. Tudo isso a um custo de capital baixo e limitado, menor que o custo de capital de um investimento via equity.

Por isso uma startup deve estar o tempo todo avaliando captar recursos via VD, de tal forma que a ela tenha capital disponível para manter seu crescimento e um runway saudável. Esta estratégia também faz com que os investidores acompanhem a evolução da startup e entendam melhor o risco da empresa. Tendo essa percepção de risco menor, o custo da dívida tende a reduzir ao longo do tempo, ficando ainda mais atrativa a utilização do VD.

Se a empresa entender como trabalhar com este tipo de funding e tiver alinhamento com seus investidores, o VD passa a ser uma ferramenta poderosa para acelerar crescimento.

  1. Para que utilizo o dinheiro de Venture Debt? E por que é melhor pegar VD para determinadas situações?

O principal motivo para captar Venture Debt é conseguir atingir milestones pretendidos e reduzir a diluição dos fundadores. Nós da Riza (e creio que todos os gestores de VD deveriam ser assim) não temos como objetivo substituir uma rodada de equity, mas sim maximizar o valor da companhia para que no momento de uma rodada de equity os fundadores consigam um valuation maior e sejam menos diluídos.

Tendo este objetivo em mente, existem algumas situações que são extremamente interessantes para se utilizar o Venture Debt:

Redução da diluição em um round de equity: é possível utilizar o VD como co-investimento, complementando a rodada de equity. Por exemplo, se o empreendedor está buscando uma captação de R$ 20 milhões através de um fundo de VC e sua empresa está sendo avaliada em R$ 50 milhões pre-money, ele terá uma diluição de quase 29% em sua participação. Uma alternativa seria o empreendedor captar R$12 milhões através do VC e R$ 8 milhões do VD, resultando em uma diluição de 19%, mas com o mesmo montante de capital.

Postergar uma rodada de equity via aumento de runway: sempre é positivo captar VD entre ciclos de captação com VCs. Desta forma as empresas conseguem capital para aumentar seu runway, continuar seus investimentos e atingir milestones. Esta estratégia tem duas consequências imediatas: postergar a rodada de equity e aumentar o valuation desta rodada no memento que ela ocorrer.

Acquisition Finance: outra situação muito adequada é quando a empresa deseja fazer uma aquisição de uma empresa alvo. Na verdade, eu defendo que quanto mais dívida se utilizar para uma aquisição melhor, desde que o fluxo de caixa da empresa adquirida seja capaz de pagar o custo da dívida ou parte dele. Isso faz com que o retorno financeiro e estratégico da aquisição seja ainda maior: é utilizado recursos de terceiros para adquirir a empresa alvo, o fluxo de caixa da empresa alvo paga a dívida totalmente, ou parcialmente, a valorização das companhias combinadas tende a ser maior, e o empreendedor não tem nenhuma diluição. Se o fluxo de caixa da empresa adquirida não é capaz de arcar com o custo da dívida, mas o valuation implícito das empresas fundidas for muito maior, ainda assim é vantajoso pois esta valorização no equity já configura o retorno sobre o capital investido. De qualquer forma é sempre importante olhar os impactos gerados no fluxo de caixa das operações combinadas.

Expansão/Crescimento: principalmente investimentos que resultem em um retorno dentro de um prazo mais curto. Se a empresa quer recursos para aumentar time de vendas e investir em marketing para aquisição de clientes, o VD é adequado pois em um espaço curto de tempo este capital é retornado com novas vendas e aumento de receita. O mesmo raciocínio serve para investimentos em P&D de novas features de produtos ou para acelerar o lançamento de novos produtos.

Reestruturação de Captable ou Cash-out: utilizar recurso de equity para fazer cash-out ou recompra de sócios é extremamente caro pois os sócios compradores precisam ser diluídos a um custo de capital alto. Nesse caso, o VD passa a ser uma ferramenta muito eficaz. Temos analisado muitos casos de recompra de participação, principalmente de anjos ou investidores mais antigos que já chegaram ao fim do ciclo do investimento e precisam de uma liquidez.

  1. Qual montante devo capitar?

Geralmente as linhas de Venture Debt possuem um prazo de 36 meses, portanto, quando a empresa capta este recurso é importante que ela tenha um plano de uso dos recursos muito bem definido para que o retorno sobre este capital seja o mais rápido possível e/ou que idealmente esteja dentro deste prazo, ou seja, os investimentos gerando retornos suficientes para pagar a dívida.

Um bom planejamento do fluxo de caixa considerando o cash burn e o novo custo da dívida é crucial para ajudar na definição do montante a ser captado. Se a empresa tiver o plano bem definido e este suportar o custo adicional da dívida, o montante a ser captado parte daí.

  1. Venture Debt vs. Venture Capital, como analisar os dois?

Os dois são complementares:

O Venture Debt é sempre mais adequado para empresas que tem uma previsibilidade da receita e do comportamento do fluxo de caixa. Ele é um capital mais barato que o Venture Capital, e evita a diluição dos sócios fundadores. Se a empresa possui previsibilidade e consegue atingir alguns milestones em um espaço curto de tempo, talvez o Venture Debt seja mais adequado.

Venture Capital, além de capital, traz governança, profissionalização, implementação de processos. Adicionalmente, os VCs ficam em média 5 anos investidos em uma empresa antes de um evento de liquidez, chegando muitas vezes até 10 anos, portanto, conseguem direcionar o capital para investimentos que levam mais tempo para retornar.

No aspecto de networking, visão estratégica e agregação de valor, coloco o VD da Riza semelhante a um VC, pois nós queremos trazer este valor para nossas investidas e é assim que nos posicionamos.

Resumindo, é possível e recomendável que as empresas utilizem os dois tipos de capital, pois assim irá maximizar seu valor, com uma estrutura de capital ótima e maior retorno aos acionistas.

  1. Venture Debt = só capital ou Smart Money?

Nós da Riza temos como tese de investimento prover o funding com smart money. Muitas vezes as empresas associam o gestor de VD como um provedor de capital apenas. Nós temos outro posicionamento, queremos trazer valor para nossas investidas através das expertises complementares dos sócios e executivos da gestora. Temos três fontes de geração de valor bem claras que trazem valor imediato a nossas investidas:

  1. estruturação de dívida e produtos financeiros: com mais de uma década de experiência por parte do Daniel Lemos, fundador e CEO da Riza Asset, em mercado de capitais, estruturas alternativas funding e produtos financeiros em geral, conseguimos criar a estrutura mais adequada para cada tipo de empresa;
  2. investimentos de Venture Capital: com uma década de atuação em gestão de fundos VC por mim, sócio e diretor de Venture Debt, conseguimos atuar em discussões estratégicas, trazendo visões de mercado, inovações e conhecimento prático de metodologias de gestão de empresas de tecnologia.
  • M&A: o Marco Gonçalves, sócio fundador e CEO da Riza Capital, é um dos principais executivos de Investment Banking do país e nós possuímos uma área de M&A de primeira linha e experiente em operações de médio e grande porte, dentro e fora do país, capaz de coordenar com excelência os eventos de liquidez de nossas investidas.

Todo este track-record dos executivos permite ainda trazermos para nossas investidas acesso ao mercado de capitais, networking com diferentes setores da economia, acesso ao ecossistema de tecnologia dentro e fora do país, e uma visão de negócios inovadora. Adicionalmente, todos foram executivos de grandes empresas tendo um profundo conhecimento de gestão, estruturação de time, contratação de executivos, entre outros skills essenciais para o desenvolvimento de empresas. Nesse contexto, o Venture Debt vem com smart money.

  1. E sobre dívida em época de crise (covid-19)?

As empresas estão passando por um momento de crise muito forte, onde a perda de clientes ou renegociação de valores e prazos será inevitável. Os principais desafios dos executivos e empreendedores serão minimizar esta fuga de clientes, renegociar contratos a condições aceitáveis sem prejudicar muito a operação e manter uma operação enxuta para não ter impactos fortes no cash burn.

Nesse contexto, o VD passa ser um instrumento importante para a empresa ter folego até a retomada da economia e normalidade dos negócios. Ele ajudará a criar um colchão e estender o runway. Além disso, é um momento no qual o empreendedor está em desvantagem para captar um investimento VC pois os valuations estarão mais estressados.

Para nós gestores é um momento de muitas oportunidades, mas que precisamos ter muita calma e disciplina nas análises, sempre buscando entender que apesar do momento desafiador, a empresa possui bons indicadores e irá se recuperar assim que as condições normais de mercado retomarem.

Esperamos que depois desta entrevista você tenha compreendido um pouco mais sobre Venture Debt. Estamos sempre em busca de conteúdos que ajudam os empreendedores da nova economia a crescer. Por isso, se quiser ficar por dentro das novidades, assine nossa newsletter.